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Filosofando na praça !

Há quanto tempo eu não lia Manuel de Barros ! Ontem reli o "Livro das ignorãnças", de onde retirei os trechos abaixo. Aliás, leitura indispensável para aqueles que pretendem relembrar de suas "ignorãnças".

Pessoal, estou na praça cuspindo conversa com os amigos, apareçam por lá e deixem os seus comentários. O endereço é www.zeooutro.zip.net

Mundo Pequeno

IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

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Uma Didática da Invenção

I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.



 Escrito por Laura Beatriz às 01h27 [] [envie esta mensagem]



NUMA FASE GONÇALVES DIAS !

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
 ( Mignon, de Goethe )

Conheces a região onde florescem os limoeiros ?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem ? Nesse lugar,
eu desejava estar"  (Mignon, de Goethe)

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

( Gonçalves Dias )

Coimbra - julho 1843.

    Estou setindo BANZO. Historicamente, trata-se de uma nostalgia mortal que acometia os negros trazidos como escravos para o Brasil. E, segundo afirma o professor João Ribeiro : "uma moléstia  estranha, que é a saudade da pátria, uma espécie de loucura nostálgica ou suicídio forçado, o Banzo, dizimava os negros por inanição ou fastio, ou os tornava apáticos."

    Comprovei, finalmente, a teoria de que a saudade provoca DOR. Nestas duas últimas semanas, tenho sentido uma dor imensa que vai do meu estômago até o meu peito e que invade todo o meu cérebro. É um sentir solitário, uma sensação de deserto, de abandono. A memória é algo aterrorizador e combinada à distância cumpre o papel de vivificar ainda mais os fatos passados e a imagem das pessoas queridas. Pos esses dias, navegando na Internet, tive a atitude estúpida de lançar no Google a palavra Banzo e me deparei com um site especializado em redescobrir o passado. Para os curiosos, o endereço do site é www.banzo.com.br.

     Bem, é isso, ando numa fase Gonçalves Dias, sinto saudade das palmeiras e do canto do sabiá e, sim, reside em mim uma certa sensação de exílio. O indispensável poeta Mário Quintana definiu a saudade da seguinte maneira : "Para sempre é muito tempo, o tempo não pára, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..." Quintana tem razão, a contagem do tempo se modifica para aquele que é acometido por tal sentimento. Atualmente, vivo de boas e de más lembranças e, apesar de estar feliz, cheia de projetos, amando e sendo amada, o desejo de regressar à aconchegante terra natal é muito forte. Compreendo perfeitamente o que sentiram os nossos irmãos afro-brasileiros ao serem retirados de sua Mãe África e lançados no Novo Mundo.

    Ontem revi as fotos de uma viagem que Ronnie e eu fizemos, no ano passado, à cidade de Paraty- RJ. Tivemos dias maravilhosos e pudemos desfrutar de toda a beleza natural, típica de nossa querida mátria. Sim, é berço, é mãe e, portanto, MÁTRIA Brasil. Coloquei algumas das fotos dessa inesquecível viagem no nosso fotoblog. Se quiserem acessá-lo, basta clicar em CRIAMOS UM FOTOBLOG, link ao lado.

    Para finalizar e movida por um sentimento avassalador de saudade, aproveito para mandar um forte abraço a todos os parentes e amigos de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, do Recife e a todos aqueles que, assim como eu, vivem como imigrantes em terras estrangeiras.

       



 Escrito por Laura Beatriz às 02h36 [] [envie esta mensagem]




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