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Saint Exupéry, Magritte e a Vitória !
Todo o mundo já leu ou pelo menos já ouviu falar do livro "O Pequeno príncipe" de Saint Exupéry. Alguns de meus amigos, inclusive, afirmam que esse e o best-seller "O Mundo de Sofia" são os livros preferidos das candidatas a concursos de beleza, as quais, segundo se pressupõe, não são adeptas da leitura. Ainda que você, querido amigo e leitor, não aprecie a literatura de Exupéry, eu gostaria de lhe apresentar uma semelhança que encontrei entre o trabalho desse escritor, as telas de Magritte e os pensamentozinhos de minha sobrinha Vitória.
Em "O Pequeno príncipe", como todos já sabem, Exupéry nos conduz ao universo infantil. O livro inicia com a personagem principal narrando um evento que lhe ocorreu aos seis anos de idade. Leia o trecho abaixo :
"Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.

Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão."
Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:

Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.
Respondera-me: "Por que é que um CHAPÉU faria medo?"
Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:

As pessoas grandes aconselharam-me a deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando."
Após ler esse trecho, observe uma das mais conhecidas obras de Magritte, na qual o pintor nos provoca com a seguinte frase : ISSO NÃO É UM CACHIMBO.

Mas, ao olharmos para a gravura novamente, continuamos a ver um cachimbo. O pintor Renê Magritte divertia-se diante do inconformismo que essa negação provocava nas pessoas. Afinal, desde muito cedo, somos levados a associar uma palavra a um objeto. Magritte e os demais pintores surrealistas conseguiram transportar questionamentos do universo lingüístico para o âmbito das Artes Plástiicas e o trabalho desses artistas nos leva a refletir que a imagem e a palavra "cachimbo" não são de fato o cachimbo. O escritor e músico Arnaldo Antunes, autor do livro "Duas ou mais coisas no mesmo espaço", escreveu o seguinte sobre esse tema : "os nomes das coisas, não são as coisas, as coisas simplesmente são" Sim, independente de nossa vontade e necessidade de nomear tudo o que há no mundo, os objetos são, antes mesmo de serem nomeados.
É impressionante observar como as crianças, quando desenham, são capazes de ver num só "rabisco" uma enormidade de coisas. Minha amada sobrinha de quatro anos, a Vitória, certa vez me presenteou com uma folha repleta de abstrações e papeizinhos grudados e disse : "Tia, desenhei para você uma floresta cheia de bichos." Vale ressaltar que os papéis colados na folha de sulfite representavam os animais da floresta da Vitória Percebam que assim como Magritte, a Vitória e a personagem de Saint Exupery são capazes de ver além do objeto e da palavra que o designa. Magritte costumava afirmar que arrancamos das crianças, por ntermédio de obtusos e enclaurados sistemas de ensino, a sua capacidade infinita de ver o mundo e, ainda segundo esse pintor, nascemos dotados de uma espécie de genialidade e aos poucos, conforme crescemos, vamos emburrecendo o nosso olhar e a nossa percepção. Sim, há de fato muitas semelhanças entre os escritos de Exupéry, as obras plásticas de Magritte e a liberdade presente nos curiosos olhos de minha sobrinha e de todas as crianças.
Escrito por Laura Beatriz às 16h41
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Uma proposta de leitura !

QUADRILA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Primeira estrofe :
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
Segunda estrofe :
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes,
que não tinha entrado na história.
Há muito o poema "Quadrilha" me fascina por sua simplicidade formal e beleza de conteúdo. A escolha que Drummond faz das palavras confere muito significado a esse trabalho poético, minha opinião. A seleção do verbo amar no pretérito imperfeito (amava), por exemplo, além de dinamizar a narrativa, confere-lhe efeito de circularidade. Faça o teste : Troque o verbo amava (pretérito imperfeito) pela forma verbal amou (pretérito perfeito). Você certamente perceberá que o poema perde toda a sua musicalidade e dinamismo.
Observe como o verso ficaria se a forma verbal fosse alterada : João amou Tereza que amou Raimundo. Ação finalizada. Amou e não ama mais. Fim.
Mas o poeta sabia que a Quadrilha é dança, a dança dos amores que vêm e vão e, segundo a ótica (um pouco pessimista) de Carlos, o AMOR não é um sentimento recíproco, ou seja, na dança da vida, estaríamos fadados ao desespero de amar sem sermos amados. Será ? Chico Buarque ao compor a maravilhosa canção "Flor da Idade" estabeleceu uma relação intertextual com esse poema, mas nos versos escritos por Chico, apesar de rara, a reciprocidade amorosa é possível. Ufa ! Também acredito nisso. (rs) Aliás, não deixem de ouvir "Flor da Idade".
Ainda sobre os tempos verbais, pode-se observar que na segunda estrofe, quando o poeta se refere a assuntos da vida cotidiana, a forma verbal privilegiada passa a ser o pretérito perfeito, observe : casou, morreu, mudou, foi, suicidou-se...Todas ações acabadas,
Outro detalhe que me chama a atenção é o fato de que as personagens desse poema-narrativa possuem nomes e são parte da quadrilha, ou seja, metaforicamente, arriscam-se ao amor. Apenas Lili dança a quadrilha e, apesar de não amar ninguém e não possuir exatamente um nome, casa-se com J. Pinto Fernandes que é conhecido pelo leitor apenas no final desta história. A partir da leitura dos dois últimos versos, pode-se afirmar o seguinte: Lili não se casou por amor, afinal ela não amava ninguém; a personagem com quem Lili se casou, J. Pinto Fernandes, não tem um nome, mas um sobrenome. E, cá entre nós, J. Pinto Fernandes mais parece a razão social de uma empresa e, portanto, teria Lili se casado por interesse ? Acredito que sim. A criação dessas personagens sem nome parece ser uma crítica do poeta aos casamentos movidos por interesses materiais. O sobrenome da personagem sem essência e sem nome, J., parece apontar para essa possibilidade de leitura. E quanto a Joaquim : que motivo o conduziu ao suicídio ? Pois é, ainda que Drummond nos apresente um trágico universo de relações amorosas, quanta sensibiliade há nestas inspiradas linhas. Sim ?
Escrito por Laura Beatriz às 04h11
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